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Apresentação

Talvez seja útil imaginar uma tela em branco, ou uma página em branco, para nela deixar surgir a imagem desenhada a lápis de um garoto de 12 anos que, também com grafite, traça figuras variadas, volumes, sombras, movimentos, retratos, paisagens. Muitas e muitas outras telas e páginas em branco serão preenchidas pela informação visual que toma forma em seus traços. O universo é uma criação da mente.

Que maravilhosa perspectiva é descobrir, ainda jovem, o que se quer ser ou fazer na vida. E, mais ainda, que grande maravilha é conseguir fazê-lo. Paulo Nilson é um desses afortunados que desde cedo soube que queria correr o risco, um risco a lápis, carvão e pincel. Queria ser pintor. Sem dúvida. Mal tinha 14 anos quando participou do concorrido Salão de Artes de Piracicaba.

Depois de estudar arquitetura, urbanismo e artes plásticas, em São Paulo, Paulo Nilson passa a trabalhar como ilustrador para as principais publicações impressas brasileiras. Algumas vezes integrando a equipe fixa na redação de algum jornal ou revista. Mas, na maior parte do tempo, como colaborador de algumas delas. Também contribuiu com ilustrações e design nos cadernos de alfabetização de adultos, sob o comando de Paulo Freire.

Assim, quem leu revistas e jornais entre o final do século 20 e as primeiras décadas do século 21 muito provavelmente entrou em contato com sua arte gráfica. Nesses casos o leitor se beneficiou de um serviço prestado por essas imagens, pois elas tornaram mais acessível a compreensão do assunto que estava sendo ilustrado. Ali às vezes o desafio era dar forma ao vazio. E Paulo Nilson dava conta, valendo-se de grande versatilidade de estilos e métodos.

Esse Paulo Nilson ilustrador que conhecemos das revistas é uma das faces de um personagem que se define, antes de mais nada, como um pintor profissional. O Paulo Nilson das muitas revistas seria o mesmo que um dia deixou uma dessas redações para trilhar o Caminho de Santiago de Compostela? Teria sofrido alguma transformação nessa jornada? Muito provavelmente. Mas há algo que não mudou. Paulo Nilson continuou pintando, como sempre pintou entre uma revista e outra naqueles anos todos.

Óleo, acrílico, aquarela, têmpera. Mesmo no tempo das muitas ilustrações, havia pinturas. Agora Paulo Nilson pinta cada vez mais. Continuou a pintar quando, na volta do Caminho, mudou-se para Cordeirópolis, no interior paulista. Continuou a pintar quando retornou à sua Campinas natal, quando trabalhou com imagens tridimensionais, quando ilustrou livros didáticos… Agora de volta à cidade que ama, São Paulo, continua pintando e ilustrando. Mais do que nunca.

Quem, como eu, o conheceu nos tempos das revistas, gostará de rever uma seleção de sua arte gráfica. Quem, também como eu, aprendeu a apreciar sua pintura, perceberá que é sim um privilégio ser contemporâneo deste artista e observar o mundo do ponto de vista que ele generosamente compartilha. Perceberá também que este artista em sua maturidade é aquele jovem pintor que, lá no inicio destas linhas, traçava a lápis um futuro repleto de telas que Paulo Nilson continua pintando.

Caco de Paula - Jornalista, editor, nadador master.

Biografia

Nasci em Campinas, em 1956, de família operária. Meu avô veio da Alemanha, de uma cidade satélite de Solingen, para onde a família havia imigrado da Suécia. O sobrenome original era Nilsen. Meu Pai, Waldemar Nilson, chefe na seção de máquinas pesadas do DER, faleceu quando eu tinha 4 anos. Minha mãe, minha irmã e eu nos mudamos para a casa da minha avó Antonia no Taquaral. Aos 7 anos, em 1964, estava no centro da cidade com minha mãe, e vendo os soldados na rua, perguntei "O que é comunismo?" e minha mãe me mandou ficar quieto, senão viria um soldado prender a gente. Aprendi a ler rápido, e comecei a ler avidamente. Adorava a coleção "Gênios da Pintura", e meu sonho era viver em Paris numa água furtada, bebendo vinho e passando fome, mas pintando feliz. Ou então ir para a África e me tornar um Tarzã, com uma faca na cintura, conversando com os macacos.

Um tio me pagou um curso de desenho por correspondência. Não gostava muito, por falarem em arte comercial. Para mim, a arte devia ser pura. Comecei a seguir os pintores domingueiros de Campinas, que se reuniam para pintar casarios. Me olhavam com despeito, pois já desenhava melhor que a maioria deles. Aos 14 anos fui aceito no Salão de Belas Artes de Piracicaba, extremamente exigente. Comecei a receber aulas particulares do professor Archimedes Dutra, belíssimo pintor impressionista, com formação em Roma.

Lia muito, emprestando os livros da Biblioteca Municipal. Renovava continuamente livros de ioga, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Dostoievsky, Tolstoi. Consegui ler textos comunistas nos anexos do Inquérito Policial-Militar "Comunismo no Brasil". Então descobri um autor que mexeu com minha cabeça, A. S. Neil, com "Liberdade sem Medo". Descobri que poderia ter sido criado com mais liberdade. Minha mãe ficou ofendidíssima quando contei a ela. Fui atrás das referências de Neil, principalmente Wilhelm Reich. Estudei bastante filosofia, principalmente na maravilhosa "História da Filosofia Ocidental". de Bertrand Russel.

Decidi tentar Arquitetura e Urbanismo. Naquela época, só tinha na PUC, e eu não tinha dinheiro para pagar. Um primo me conseguiu uma bolsa-trabalho, no CPD. Digitação de números em cartão perfurados, na pré-história da informática. Entrar na Arquitetura foi um negócio dramático. Fiquei assustado com os costumes muito liberais. Eu vinha de uma criação moralista, e era muito tímido. As colegas davam em cima de mim, e eu me trancava. Ninguém gostava dos meus quadros, diziam que eram acadêmicos. Não entendia os textos de sociologia, quase todos em espanhol, pois eram de livros proibidos pela censura. Perguntava aos colegas se estavam entendendo os textos acadêmicos, cheios de notas de rodapé e referências, e diziam que estavam "sacando mais ou menos". Me senti muito burro, li e reli os textos até entender! Fiz os exames e fechei as notas no primeiro semestre com dez em todas as matérias.

No segundo ano eu percebi que não queria ser arquiteto, mas artista. Além do mais, perdi o trabalho no CPD, pois acabou a bolsa-trabalho. Arrumei emprego na Secretaria de Cultura de Campinas, como "encarregado de serviços de impressão". Estava no quadro operário, recebia salário mínimo em envelope. Meu trabalho era imprimir folhetos numa off-set, para divulgação dos eventos culturais. Uma grande vantagem era que tinha ingresso gratuito em todos os shows, peças de teatro, dança e orquestra, nos dois teatros da prefeitura. Comecei a produzir arte para as peças de divulgação, folhetos e cartazes. Fiz amigos entre os músicos e admiradores de cinema. Me encontrei com Mercedes Sosa, Raul Cortez, Plínio Marcos, Elifas Andreato, Volpi e Rafael de Carvalho, que me levou para conhecer seu velho amigo, o capitão Luiz Carlos Prestes.

Meu chefe era o Grama, apelido de José Roberto Magalhães Teixeira, do MDB. Naquele tempo só tinha dois partidos, a Arena, que apoiava a ditadura, e o MDB, uma grande coligação das esquerdas. Grama acolheu pessoas muito talentosas que estavam sem emprego por causa da repressão. Um deles foi Enildo Pessoa, engenheiro, que tinha sido diretor do Porto de Recife. Preso e barbaramente torturado pela ditadura, veio coordenar o projeto AR-5. Era uma plano-piloto do trabalho que a prefeitura poderia fazer numa região, num esforço concentrado, que reunia trechos de favela, classe média e classe alta, com habitantes de diferentes classes sociais e origens. No começo imaginou-se que a Secretaria de Cultura entraria por último, como a cereja do bolo, depois do saneamento, saúde, administração etc tivessem feito seu melhor, mas logo ficou claro que a Cultura e Educação serviriam como fatores de integração e mobilização de culturas múltiplas.

Eu havia casado com a She, psicóloga, que trabalhava comigo na secretaria. Entrei na FAAP, em São Paulo, e precisava me mudar. Arrumamos um quarto numa república de artistas, perto da PUC. Ela conseguiu uma bolsa na Federal de São Carlos, e eu tentava frilas. Fomos levando até que fui convidado a trabalhar na Veja como ilustrador. Estava no terceiro ano de Artes Plásticas, mas tive de abandonar o curso. Trabalhava até de madrugada, e as aulas começavam bem cedo. Nasceu nosso primeiro filho, Pedro. Trabalhei na Veja por dois anos, até ser convidado a trabalhar na IstoÉ e aceitei correndo. Teria mais liberdade de trabalho numa revista com menos recursos. Me sentia tolhido e sacaneado na Veja. Logo comecei a fazer as capas, além das ilustrações. Montei uma pequena equipe. Minha mulher trabalhava em atendimento de crianças de rua, na Lapa. Começou a trabalhar com Vera Barreto e a equipe de Paulo Freire. Eu colaborava com ilustrações para os cadernos de alfabetização de adultos. Nasceu nosso segundo filho Gabriel e decidi largar a revista, pois já estava ganhando mais com os frilas, sem tanto enchimento de saco.

Fui convidado para trabalhar no Estadão, esperando uma prometida informatização que nunca veio. Fiquei lá por quase dois anos. Fui trabalhar com computador só quando consegui comprar um. Colaborava com várias revistas da Abril. Minha preferidas eram a PlayBoy, pelos desafios de criação, e Superinteressante, pois a divulgação científica me encanta. Já era jornalista registrado, e sempre considerei o aspecto pedagógico da ilustração. Fui convidado a trabalhar na 4Rodas. Nunca gostei da perfumaria cosmética dos veículos, mas adorava entender e explicar detalhes das novas tecnologias. Por todo o tempo em que trabalhei em revistas e jornais, continuei com meu trabalho de pintura em casa. Fui demitido da 4Rodas e recebi uma indenização que me permitiu cumprir o antigo sonho de percorrer o Caminho de Santiago. Queria encontrar a resposta para uma questão crucial: continuar como ilustrador pelo resto da vida ou me assumir como artista plástico.

Quando voltei da Espanha, meu casamento de 24 anos estava terminando. Fiquei perdido, sem minha base de trabalho que era minha casa e sem meus filhos, que acompanhava desde a primeira respiração fora do útero (ajudei no parto de todos). Encontrei apoio no Santo Daime, na igreja comandada pelo meu velho conhecido Glauco, que conhecera junto com o Laerte, nos tempos da Gazeta Mercantil. Encontrei uma companheira daimista, e tivemos a Mariana. Ao mesmo tempo perdi os contatos nas revistas. Fiquei duríssimo, e meu dois filhos foram internados no mesmíssimo dia, o Pedro por desequilíbrio mental e o Gabriel com linfoma não-hodgikins, de difícil tratamento. Fui forçado a me mudar para o interior, onde criei um programa de realidade virtual para mostrar, num show room artificial, os produtos de uma cerâmica de Cordeirópolis. Sobrevivi por dois anos do que me pagavam pela manutenção do sistema.

Já morando em Santa Gertrudes e dando assistência na fábrica de Cordeirópolis, cidade ao lado, fiz um curso de cine-documentário. Como segundo filme dos alunos, meu projeto foi escolhido, sobre o uso de água na cidade. De início achei engraçado o costume de se lavar as calçadas diariamente, mesmo com chuva iminente. Através de entrevistas e pesquisa descobrimos desvios gravíssimos na distribuição de água na cidade, entre os bairros pobres e as regiões ricas. Enquanto os operários sofriam de falta de abastecimento permanente, os ricos desperdiçavam água à vontade. Depois das primeiras entrevistas, que incluíram o secretário de abastecimento, a água voltou a jorrar das torneiras dos pobres. Quando voltei para anotar os nomes dos entrevistados para colocar nos créditos, queriam que eu fosse candidato a vereador, pois creditavam a mim a resolução do problema. O prefeito odiou o filme e seu sucesso, pois foi produzido e editado nas dependências da Secretaria de Cultura. Criei tantas inimizades que quase fui linchado, e tive de abandonar a cidade repentinamente.

Voltei a morar em Campinas com Pedro, meu filho mais velho, e restabeleci contato com editoras de livros didáticos, com as quais trabalho até hoje, amando o objetivo e o público final de minhas ilustrações. Atualmente estou morando em São Paulo e tentando me estabelecer como artista plástico, mas percebi que é muito difícil ser aceito. Ganhei alguns prêmios em salões, mas até agora não consegui galeria.